O olhar criativo e perspicaz do arquiteto enxerga as soluções para tornar o espaço maravilhoso.

Escuro, revestimento desatualizado, paredes descascadas, reboco caindo, cômodos espremidos, sem forro, sem vigas e sem a menor inteligência arquitetônica. Essa era a situação do sobrado dos anos 1950 quando os atuais donos o viram pela primeira vez. A situação era tão desanimadora que gerou até controvérsia: a mulher não queria saber daquela “batata quente” de jeito nenhum, mas o marido enxergou um potencial por baixo das camadas de abandono e degradação e decidiu investir na casa antiga e cheia de desafios – que não eram poucos.

O imóvel original, geminado com o vizinho e compartilhando os estilos de telhado e fachada, apresentava muitas limitações, a começar pelos muros espessos, porém baixos, que expunham demais a residência, e uma laje baixa sobre pilares na garagem que tomava espaço e escurecia a sala. Além disso, havia uma janela no pavimento superior que dava para a casa do vizinho (totalmente irregular) e uma escada de acesso ao segundo pavimento com muitos degraus que não dava altura suficiente para uma pessoa mediana passar sem bater a cabeça. Outro problema estava em parte do forro de papelão, que se desfazia, fora o maior de todos os desafios: faltava estrutura na casa – exceto por uma única viga que suportava a escada.

Entre as principais demandas dos moradores, havia a necessidade de criar espaço para dois carros na garagem, trazer mais privacidade e segurança ao imóvel, melhorar o aproveitamento do espaço interno e substituir completamente todos os itens ultrapassados, feios e podres que abundavam no local. Assim, o terreno estreito e pequeno de 4,5x22m se transformou radicalmente com um investimento médio de R$ 1.400 o m² entre materiais, projeto mão de obra, todos os serviços especializados e marcenaria.

O ponto de partida do arquiteto Flavio Cunha, do escritório SET Arquitetura e Construções, era arejar, iluminar e transformar os espaços “A integração para aproveitamento da luz era uma premissa básica, além de fazer com que os ambientes pequenos parecessem maiores”, explica Flavio Cunha. Explorando a visão longitudinal da casa, ele apostou em forro único, piso no mesmo nível, inclusive no deque do jardim dos fundos, e o mínimo de paredes, para ter acesso visual da casa toda. “Preservei apenas algumas para enclausurar a escada e a pia da cozinha”, explica o arquiteto Flavio Cunha.

Estrutura da cobertura, deques, balcões, escada, degraus de acesso e painéis de fechamento foram feitos com madeira reaproveitada, a menos de ¼ do preço do material novo.

Aproveitando bons contados com arquitetos, decoradores e empresas que montam estandes de vendas e apartamentos decorados, foi possível fazer pechinchas incríveis, como a compra de um lote de matérias usados contendo vigas metálicas, tacos de peroba-rosa, de cumaru, janelas com persianas integradas, janela de correr com três folhas, porta-balcão, conjunto de pias de granito verde Ubatuba, cubas de inox, pedras marmoglass, vasos sanitários com caixa acoplada, pastilhas de vidro e um grande arsenal de madeiras, tudo isso por apenas R$ 10 mil. Isso representou 75% a menos do que ele gastaria com itens novos. Como essa é uma situação específica, o arquiteto Flavio Cunha dá uma dica para quem não é tão bem relacionado. “Leilões, como o Sold, são excelentes para comprar lotes de materiais quase tão baratos quanto esses. Nesse projeto os principais itens são usados, foi tudo limpo, polido e reaproveitado, e nem parece. Compensou tanto que o gasto com revestimento foi praticamente zero”, detalhou o arquiteto Flavio Cunha.